segunda-feira, outubro 29, 2007

TIME OUT

Abril 2008. Gabinete de Crise da revista Time Out. Segue-se o diálogo imaginário.

- Como não há tema de capa?
- Não há temas, esgotámos tudo, a cidade não pode dar mais.
- Nada sobre o Porto de Lisboa?
- Nada, a não ser que queiras entrevistar contentores.
- Um destaque sobre os cemitérios mais giros de Lisboa?...
- Fizemos um no dia-de-todos-os-santos. Não te lembras do vagabundo a expulsar-nos à pedrada dos Prazeres?
- Já dissemos mal de todos os restaurantes?
- Todos. Só somos benvindos no McDonald’s e na Sopa dos Pobres.
- Nem um filmezinho americano para arrasar?
- O Sérgio já não tem tempo, está a trabalhar com os Gato Fedorento.

A Time Out é a maior razão de júbilo na cidade desde a saída de Santana Lopes da Câmara de Lisboa (e da frente das câmaras da SIC). Os mais cépticos receiam o momento inevitável em que a revista semanal (sai às quartas) deixe de ter assunto central, o chamado tema de capa. Realmente, foi inteligente lançar uma revista nova na rentrée, quando acontece a Festa do Cinema Francês, a Moda LX, o DocLisboa, a Mostra de Cinema Brasileiro e até a Parada da SIC. Mas, ao contrário dos cépticos, eu acho que a Time Out vai continuar a dar conta do recado. Quando não houver temas, inventam-se.

A Time Out é a prova de que nem tudo o que é bom se obtém através de download. O problema é que, se eu decidir ler a revista de fio a pavio (já lá vão cinco números para além do número zero, que também li), deixo de ter tempo para sair. Mas será que preciso? A Time Out está exactamente a descrever aquilo que eu penso sobre as experiências (boas e más) por que todos nós habitualmente passamos nesta cidade popular e polarizada. Exemplos: os preços exorbitantes do restaurante Sul, a refulgência dos croissants na Bénard, a idiotia do Dia Europeu Sem Carros, a má qualidade do café na cidade (incluíndo A Brasileira). Até se percebe aquela reacção um pouco tacanha da revista contra o facto de a Moda LX não ser aberta ao público. Estando a Time Out assumidamente ao lado do hoi polloi, dos lisboetas e das tascas, é natural que se indigne quando a imprensa destaca uma atracção e um espectáculo que não seja público. É como as revistas de viagens mostrarem hotéis de seis estrelas no Dubai que nunca iremos visitar.

Outra coisa que admiro na Time Out: a sua “lisboacidade”, para referir uma personalidade singular alfacinha, quase impede a tradução da revista para uma língua estrangeira. Ou seja, enquanto o forte das restantes Time Outs europeias é o facto de disponibilizarem versões em inglês para turistas, a Time Out Lisboa não é para inglês ver, bem pelo contrário: a sua vocação, para não dizer provocação, é lisboeta marialva (no elogio) e esperteza saloia (no seu pior). Os leitores globais queixam-se de que a revista não tem distribuição nacional; eu queixo-me (e ao mesmo tempo congratulo-me) ao pensar que a Time Out é, nesta sua primeira infância, uma reacção exemplar ao status quo, da mesma forma leviana que era O Independente nos anos 90. Com impertinência ou sem ela, a Time Out será durante muito tempo a melhor forma de estar por dentro.

Miguel Somsen

In Metro

1 comentário:

M Isabel G disse...

É uma boa revista sim senhor.
Muito bem feita

ISABEL G